terça-feira, novembro 01, 2005

Para quê mentir

Amiguinhos, este espaço despede-se de vós com este texto antigo (creio que terá uns dois anos). Não é por mais nada, apenas me deu gozo lê-lo quando hoje tropecei nele. As razões para acabar com o blog? Perdi o prazer de escrever nele. E como o prazer fosse o fundamento da sua existência, a minha atitude só peca por extemponânea dado que perdi o gozo nisto há uns tempos. Talvez que não tivesse tido antes a coragem de o assumir nos momentos de solidão em que me encaro como ser humano (quando vou fazer cocó). Não vou deixar de escrever, obviamente. Mas quero abalançar-me a outros voos e para isso não posso andar com este blog no entendimento. Gostei muito de vos ter como leitores, especialmente quando me prendavam com os mais forçados encómios (elogios que nunca deixei de associar à generosa tentativa da vossa parte para prevenir o meu suicídio). Trato-vos por leitores devido ao binómio leitor/escritor. Porque eu sou um escritor (ou perguntem lá à minha mãe).
Outra coisa: após as exéquias ao Sono das Maçãs, sou capaz de responder à cortesia do meu amigo José Filipe (esse virtuoso) e enviar-lhe muito de quando em vez umas coisinhas para ele publicar no seu blog, o Vodka e Valium 10 (http://vodkaevalium10.blogspot.com).
Uma pessoa comove-se com as despedidas e vai tentando adiá-las a qualquer pretexto. Mas eu corto cerce nas mariquices, dou-lhes já os meus beijinhos e deixo-vos com o epitáfio que eu escolhi para a lápide do defunto:

«Ingredere in petram, et abscondere in fosso humu»
Isaías

(Entra na sepultura, e some-te na terra dessa cova)



Para quê mentir, hã? Para quê mentir? Estou farto daqueles choradinhos poéticos: “a lua a franzir uma nuvem, a lua zangada comigo, e uma estrelinha a aproximar-se à revelia do luar hegemónico, o lua napoleónica ‘eu sou uma estrela, só que sou maior que as outras’”,
estou farto dessas merdas, percebem? “o colibri pousado no ar a beber o esperma da flor ao tempo em que larga um bocadinho de cocó que as raízes engolem avidamente”
“as raízes e as minhocas revolvem a terra, fazem-me cócegas na planta do pé, eu sou um kayake”
depois aquela salmodia da dor e da tristeza e do desespero “o êmbolo do tempo a empurrar-me para a morte, dói tanto a queda da tua lágrima no meu testículo esquerdo quando sabes bem que não tenho testículo esquerdo.”. ”Se lograres auscultar o estertor dos vivos entendes o meu anelo (palavra que me faz lembrar ânus), os mamilos duas borrachinhas (apaga-me a erecção do lápis).”
E não me venham com merdices! Querem a verdade, eu dou-vos a puta da verdade:
O único monólogo audível na minha mente é muito simples:
para as mulheres:
“sua vaca comia-te toda filha da puta/ tu és um ogre puta de merda mas aposto que estás esfomeada eu trato-te da saúde / tu tens a mania que és certinha, dava-te uma lição, fodia-te até à morte camela de merda (adoro o camela), tu nem para me limpares o cu servias”
para os homens:
“és feio, pelo menos sou mais giro do que tu, sou mais forte do que tu, e tu podes ser mais forte do que eu mas eu sou mais inteligente, és um burro feioso, mania que és rico dava-te um soco nos cornos cabrão”.
Estou farto de ter de respeitar os outros ou de ter de manter uma imagem PORQUÊ?!!!!! PORQUÊ!!!!???? quem disse que o tenho de fazer!!!!!????? Farto de sorrir para ti e para ti também, de te apertar a mão, de ter de construir um diálogo contigo e não poder dizer logo VAI COMER ATUM ou A TUA MÃE LAVOU-ME O ESCROTO COM PEDRA-POMES!!!!!
portanto lembra-te quando me apresentares a tua namorada ou a tua amiga ou a tua irmã eu vou lambê-la dos pés à cabeça, lembra-te que se eu pudesse já te tinha matado
lembra-te que, quando me vires sorrir cordialmente ou simplesmente ostentar um semblante inexpressivo, vou estar a dizer uma só coisa: AAAAAAAAAAAARRHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
e por que raio não me posso peidar e por que raio não posso arrotar e gritar caralho?! ahhhh?!?!?!? FILHOS DUMA GRANDE PUTA!!!!
Se exceptuarmos o Sol, constatamos que a estrela mais próxima está a 4 anos-luz da Terra, ao passo que a mais afastada (da Via-Láctea) dista cerca de 220.000 anos-luz da Terra. Os cientistas afirmam existir cerca de dois milhões de sistemas estelares semelhantes à Via-Láctea, alguns distando de nós mais de cem milhões de anos-luz. Um ano-luz é a distância percorrida pela luz num ano. Um fafoisboliorrinco corresponde a 1,537264738228447 metros. A curvatura do Universo percorre um ângulo de 1663734833,17364383 graus aralórripetros, logo sendo o mundo regido por leis abstractas, a admitirem-se os constantes universais, deus terá de ser uma entidade abstracta. E qual é o único ser capaz da abstracção? O Homem, claro está. Solipsismo. A abstracção é uma invenção do Homem, e as leis não são mais do que convenções comparáveis às medidas. A abstracção existe porque estamos a falar nela. Ah, mas os unicórnios não existem. Claro que existem, se estamos a falar neles! Inventámo-los nós. Pois, mas unicórnios são abstracções. Ah, Ah!! Disseste: “os unicórnios são”. Isso são só palavras. O verdadeiro e o errado existem? Como podes provar que eu existo? Quem sou eu? Não sabes! Quem és tu? És tu. O unicórnio é. O que podemos fazer pelo mundo? Lavar os dentes? E se os setes dias da criação do mundo fossem Eras ou Idades?
Assim damos por nós em vias de
recomeçar a criação como se fosse nossa
a primeira tacada de snooker e
a verdade integral dada numa simplicidade que oculta obscuros desígnios.
Os braços com parcelas que não controlam e a excedem
a adição subtrai-se à pureza inicial e
aponta com o dedo a verdade do mundo.
As barbelas do intelecto a filtrarem cabimentos e probabilidades e
a adornarem a pedra candente gelada de floreios de rosa e mulher
recomeça tudo outra vez até que a subtracção se some à pureza inicial
bizantinismos (aprendi esta palavra há um par de meses)
anciloses (esta há coisa de dois anos)
rodriguinhos (ouvi hoje na aula de Reais e achei engraçado)
deixem-me em paz não olhem para mim não me perguntem como estou eu sou um
guaxinim
contentem-se com isso
metam-se nas vossas vidas se já inventaram uma
se não inventem uma. Eu dou uma dica:
“Está alguém lá fora a olhar para a vossa janela”.

domingo, outubro 23, 2005

Adormecer

É como afastar uma cortina cansada
e espreitar o antigo jardim da minha solidão
com o sol mate e sem calor
a desvelar uma ponta de verde
na sombra cúmplice das árvores
a confidência de um ribeiro
aquela poalha cintilante pervagando
no silêncio das borboletas
a grinalda contínua do ruído das ondas
ao longe
o reflexo de água das folhas agitando-se nas copas
pelo chão, embalando-me
aquela paz
aquela ausência de tempo
e voltar a ser criança
desconhecer o que sou
recuperar a certeza de que se fechar os olhos
tudo ficará bem.

Resposta no Feminino

Este texto foi escrito pela Luísa Domingues, dando sequência ao Carta Para Outro Como Eu. Para quem se interesse por isto de escrever histórias, têm aqui uma excelente oportunidade para aprender a distinguir o bom do mau: este é um bom texto:


Com uma ansiedade contida, ela viu o homem levantar-se da mesa e dirigir-se ao empregado que, havia horas, matraqueava, uma a uma, as teclas do computador numa inexperiência de doer. Por segundos, teve a ilusão que ele se fosse dirigir a ela mas não, o homem limitou-se a tinir as moedas no zinco do balcão, limpo até ao fastio, e com um seco Até amanhã sem resposta, saiu do café.
Então ela pegou no último cigarro que lhe restava e esmigalhou com desespero o maço vazio.
- Que estúpida fui! Perder, por uma timidez perfeitamente idiota, uma oportunidade daquelas… podia não aparecer outra durante muito tempo, se calhar nunca mais… não podia perdoar a si própria… E agora? Agora mais uma série de infindáveis dias a cumprir no vazio, o desejo da alguém a roer fundo. Aos seus quarenta anos de mulher só, como agradaria uma aventura, um caso, mesmo que inconsequente que a ajudasse a esquecer que amanhã já nem sequer teria dinheiro para um maço de cigarros.
Ele também estava a fazer as palavras cruzadas, como eu… Talvez também esteja desempregado… Não estava lá muito bem vestido… Tinha uma nódoa na camisa… A mulher não deve tratar muito bem dele… Se calhar nem tem mulher…
O cigarro era longo e perfumado e ardia no cérebro como uma tontura e ardia nos dedos com pressa de partir.
Talvez ele volte amanhã. Se calhar é um cliente habitual do café….
O homem tinha os olhos fugitivos do caçador sem presa, caíra na armadilha dos anos, como ela… Porque é que não aguentei o olhar dele? Porque me recolhi numa vergonha que não desejo? Porque fingi os olhos baixos sobre uma página de jornal quando nem conseguia perceber as imagens que tinha diante de mim? Que burra!...
Ele tinha um olhar voraz, os olhos pesados de um desejo incumprido. Fiz bem, senão ele ainda ia pensar que eu sou alguma pêga triste… Têm sorte, elas… têm quem as abrace, mesmo que em instantes de amor fingido… E ela estava ali sozinha. E andaria pelas ruas sozinha. E ninguém fecharia a porta de casa atrás dela.
Então ele fechou a porta do quarto. Olhava-a com os olhos muito fixos, muito profundos, negros. Aproximou-se dela Como estavam tensos! e abraçou-a e beijou-a com a boca, com as mãos… despiu-a e fizeram um amor lento, de descoberta, de prazer… Não. Não da primeira vez. Ele estaria demasiado ansioso. Ela esperaria. Na vez seguinte, talvez na preguiça terna da madrugada. Depois ela dormiria no suor do seu abraço. Ele, cabeça pesando no seu peito.
Se ele vier amanhã…
Se ele vier amanhã, hei-de ter coragem para o olhar, vou olhar para ele provocadoramente, nos olhos, com uma leve expressão de gozo, talvez… Amarrotar aquela pseudo superioridade… Afinal não passa de um quarentão, uma roupa que já foi nova ontem, a esconder-lhe aquelas primeiras adiposidades… e tinha a página dos anúncios, sublinhada! Um falhado…
Se…
Estou tão magra! E já tenho cabelos brancos, aqui à frente. E estou mal vestida…De certeza que ele passou os olhos por mim por eu ser o único obstáculo que se interpunha entre ele e a porta. Maldito garoto que não pára de matraquear nas teclas!!! Coitado, na idade dele deve ser aborrecido trabalhar num café vazio… mas tem sorte, pelo menos tem um emprego. Eu não tenho nada… Que raiva!
Se ele viesse amanhã…
Agradável, tão agradável, o interesse dele pousado sobre mim… Ela endireitara instintivamente o corpo e passara uma mão invisível pelo cabelo, numa surpresa tola. Desejava tanto que isso me voltasse a acontecer um dia… e dizer que só me atrevi a olhar para ele de soslaio… O olhar dele sobre ela, displicente como num mero exercício de curiosidade, tinha instantes furiosos de despeito e medo.
Amanhã trago o vestido vermelho. Também posso pôr perfume, daquele antigo que ainda lá tenho.

Amanhã não venho. Ele ainda ia pensar que eu vinha cá por causa dele.

Se ele vier amanhã
- Posso?
- Faz favor…

domingo, outubro 16, 2005

Póstumo

Hoje desmoronou-se
o que da minha morte vai
até mim
e o que vejo agora é uma planície inóspita
sem distância
ninguém
e ouço este pensamento
como uma pena que cai
«só queria uma vida normal»
hoje os pássaros morreram
hoje as árvores calaram-se
hoje o céu cegou
hoje desmoronou-se
o que da minha morte vai até mim
hoje encontrei-me
hoje desapareci.

terça-feira, setembro 27, 2005

Um dia acordei velho

Oh minha querida
não vês que escureço
que as horas me aviltam
descem diagonais
como os meus cabelos
em desistências de salgueiro

não vês que esmoreço
que o meu olhar se esvai
num brilho baço
de ocaso
uma última revoada de pardais

Oh minha querida
não vês que me despeço
que todo o gesto
que soletro
é uma vénia de lenço
um redemoinho de folhas outonais

Oh minha querida
não vês que eu anoiteço?

P.S. recuperado pelo José Filipe, que lhe chamou um fado

segunda-feira, setembro 26, 2005

Passado

«Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia essência de oficina.
Havia matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.»

Herberto Helder

in POEMACTO

sábado, setembro 24, 2005

Uma carta para outro como eu

1

De repente tenho trinta anos e logo a seguir tenho quarenta e um. Estou sentado num café vazio com moscas a voarem pelo hálito de cerveja do ar. Voam devagar, como se nadassem, e zumbem longe, como se submersas. Em cerveja, dado o caos total dos circuitos que desenham no ar. Perdi horas e horas na minha infância a tentar encontrar um padrão no voo das moscas e não encontrei. E digo na infância porque nos tempos que correm já não perco horas: estou desempregado e não tenho mais nada na vida. Isto quer dizer que continuo à volta com o assunto das moscas, claro. Gosto de pensar que é um sinal de perseverança, talvez mesmo de obstinação. Utilizo estes dois substantivos em todas as entrevistas de emprego, invariavelmente. O segundo deles provoca sempre um pestanejar ao indivíduo no outro lado da secretária.
No café, o rádio toca umas músicas ranhosas e uma mulher, com ar de quem se prostituía e depois se arrependeu, trauteia-as sem atinar nas letras: o que é confrangedor e me fere como uma lâmina. Uma mulher que podia ser eu, mas não é porque ela está ali e eu estou aqui e olhamos um para o outro.
Fumamos, temos um jornal na mesa com o caderno dos classificados todo sublinhado a caneta. Já fiz as palavras cruzadas do meu jornal e pergunto-me se ela já fez as do dela. Olho para o jornal dela com volúpia de palavras-cruzadas. Se me achasse mais bonito pedia-lhe o jornal. E amanhã sentava-me ao lado dela, suportando o olhar jocoso do jovem atrás do balcão, e assistia à cena caricata protagonizada por dois desempregados de meia idade através do olhos dele. Assim talvez mitigasse o ridículo da situação, emprestando-me um ar picaresco, talvez enternecedor. Levaria um sorriso descontraído, irónico, mostrando que estava absolutamente ciente da previsibilidade do meu comportamento, mas que nem assim deixava de o tomar. Por obstinação, supunha. E, porque apesar de parecermos dois “cotas” ridículos aos olhos daquele jovem, era exactamente isto aquilo que nós esperávamos um do outro, aquilo que verdadeiramente queríamos, e é isso que importa: que nos respeitemos a nós próprios. Ela então teria um sorriso: frágil, tímido, mas cúmplice.
Mas as coisas não são assim. Se fossem eu não estaria aqui sentado a pescar soslaios daquela mulher, como isso me levasse a ter relações sexuais com ela. Cada vez que vejo uma mulher sozinha e os nossos olhares se cruzam, quero levá-la para a cama. Como se a troca de olhares fosse já um preliminar e nos despisse do primeiro véu do pudor. Como se assumíssemos logo ali a nossa solidão e a nossa disponibilidade para uma relação rápida e irresponsável. A solidão e o coito, à medida que avançamos nos anos, fazem cada vez mais sentido juntos.
Com tantas coisas com que me preocupar e aquilo que me ocupa o pensamento é foder uma mulher cuja beleza já só é uma memória dolorosa recalcada para um desleixe forçado. Aposto que não faz a depilação há uma porrada de tempo e que tem duas moitas de pêlos nos sovacos. Aposto que exalaria um cheiro qualquer esquisito que me faria lembrar a morte, (embora eu não faça a mínima ideia a que é que a morte cheira) mas suficientemente híbrido para me encher de nojo. Aposto que assim que eu me levantasse para limpar a pila e mijar, ela se poria a chorar baixinho, abraçada aos joelhos com o cabelo em desordem colado ao rosto crispado, pelo prazer sórdido de destruir o próprio orgulho suscitando-me compaixão, ou para se consolar sentido-se suja e desgraçada, ou pelas duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, pelo expediente/lenitivo existencial de sentir pena de si própria. (Esta frase é uma merda, mas é de propósito)
E, no entanto, isto não me dissuade de pensar que estou a comê-la por trás, pelo desfastio de mais uma erecção. De certa maneira, até me estimula.
É nesta altura que, apercebendo-me dos meus pensamentos, sei que não posso esperar muito mais de mim; que sou uma criatura reles e insignificante, com a única originalidade de reconhecer isso mesmo.
Levanto-me e olho outra vez para a mulher, à espera de detectar nela qualquer sinal de expectativa, mas ela está a olhar lá para fora, pelo que só posso imaginar um frémito de expectativa a percorrer-lhe o corpo escanzelado, sendo esse mesmo frémito a causa daquele suposto alheamento. Imagino que a expectativa está na imobilidade dela, que ela deseja ardentemente que eu a interpele nem que seja para lhe pedir lume; e isso consola-me e ajuda-me a abandonar finalmente o café.
Ponho cinquenta cêntimos no balcão de zinco e digo até amanhã. O jovem que está a fazer qualquer coisa à frente do computador diz até amanhã. Eu sinto o olhar da mulher nas costas e saio pela porta.
É uma tarde branca e as ruas estão desertas porque as pessoas estão a trabalhar. O ar tem o peso húmido das estufas. Isto faz-me lembrar da estufa fria, quando o meu pai me levou em pequeno a visitá-la, por isso decido ir ao Parque Eduardo VII. Ultimamente ajo por estes impulsos, rumo ao sabor da sugestão e só sei que vou a algum lado. Não tenho de me preocupar com o que vou lá fazer, porque eu sou um desempregado e os desempregados não fazem nada.
A caminho da paragem de autocarro penso outra vez na mulher. Sinto remorsos, como se tivesse cometido alguma injustiça. Sinto pena dela, vejo-a sozinha no café. Depois lembro-me de que ela podia ser eu e deixo de ter pena, ou não penso mais nela, ou esforço-me por isso. E ao esforçar-me, muito no fundo de mim, sei que espero encontrá-la no mesmo sítio amanhã.

domingo, setembro 04, 2005

Confissão

Estavam deitados, hirtos, verticais, na cama
tinham os olhos abertos e os rostos
tão brancos que podiam ter cada um sobre
si a lua.
Eram meus pais e matei-os e não há nada
de que mais me arrependa, sinceramente.

Encheu-me os olhos o brilho do mar

Na escuridão irressoante do quarto
ouço um gotejar monótono
isócrono
avergar o tempo.

Os meus olhos fosforescem
cristais de sal
e lançam sobre a pedra
reflexos semoventes de água.

Lá fora alteiam-se
catedrais de grilos
e nos meus dedos latejam
clarões de sol.

Pela janela o mofo
das chuvas de setembro,
o incenso do cansaço
dos carros
e o alcatrão
molhado resplendente
amarelo baço.

Mas nos meus ouvidos,
nos meus ouvidos
o restolhar seco e bravio
das palmeiras,
a canção visual
dos búzios na areia
as dunas com franjas de vento e cardos

a ressaca das ondas na rocha,
no meu peito molhado.

sexta-feira, julho 22, 2005

Um começo

1.

Vê-se um cinzeiro. Uma mão abandonada pendurada de um fio de fumo. Ouve-se suspirar e uma nuvem agitada expande-se, expande-se demais, e desaparece em estratos imóveis no ar, como faixas de gaze, como as linhas de espuma nas marés baixas de setembro. Surgem então dois pés; um que se pousa sobre o outro. São largos e pálidos. São feios. Dois pés e um cinzeiro e estratos de nuvens imóveis no ar; como um crepúsculo de setembro. A mão desaparece, regressa e outra vez a nuvem. Violenta, muda, primeiro branca, depois azul, um azul suspeito. Que se dissolve. E outro suspiro. E um fio de fumo que se enrola no tecto.
Ouve-se uma risada, cava, ressentida. A mão desloca-se, o fio treme. Os objectos sobressaltam-se, estremunhados. Levantou-se o pó invisível do silêncio, para logo assentar novamente, como uma asa cortada.
Da porta do quarto, uma água-furtada, vê-se uma mulher adormecida numa cama, vê-se as costas de uma poltrona e a silhueta de uma cabeça enquadrada na janela para onde parece olhar. Depois surge uma mão com um toco de cigarro e logo a seguir uma nuvem de fumo.
Olhando pela janela vêem-se prédios estriados pela água da chuva na vidraça.
Outra risada, mais prolongada. A mão sobe triunfalmente, num arco, desce, e a cabeça sopra o fumo que alastra pelo vidro da janela. Outra risada, aberta, quase franca, quase espontânea.
A mulher na cama move-se. O seu rosto está tapado um pouco pela almofada, um pouco por uma madeixa de cabelo castanho. Castanho escuro, na penumbra fria do quarto.
A janela é fustigada por uma saraivada. A mulher move-se outra vez, cobre com o lençol uma perna que estava descoberta. Inspira, boceja, vira-se bruscamente para o lado da poltrona. Coloca uma mão sob a almofada. Encolhe-se numa posição fetal. Da porta do quarto não se vê, mas dir-se-ia que ela tem os olhos abertos. Castanhos, húmidos, reflectindo a claridade cinzenta da janela. As costas estão descobertas até ao princípio das nádegas. Entre as espáduas salientes destacam-se as vértebras que desaparecem entre os lombares. Do emaranhado de cabelo surge um ombro magro que culmina num ponto baço de luz. Os olhos ter-se-ão fechado.
- Que dia é hoje?
A voz é rouca e flébil, mas apesar de não ter passado de um murmúrio, anulou o pó do silêncio, e os estratos de fumo como que vibraram e desapareceram. A voz débil, indistinta, de quem acorda de um sono profundo, tomou o quarto até aos escaninhos mais escondidos e, agora, as risadas de há pouco afiguram-se um produto desse sono.
Não está ninguém na poltrona. A mulher está sozinha.
Senta-se, joelhos flectidos, olhos inchados e fitos, longe ainda, pigarreia, experimenta o silêncio, pousa os cotovelos nos joelhos e esconde o rosto nas mãos. Fica assim uns momentos, à espera ou à procura, à espera e à procura, a esquecer e a lembrar, um minuto se tanto, deita-se novamente, estica os braços, espreguiça-se, boceja, um esgar que toca as margens do sorriso, e quase num pulo põe-se de pé. É alta. Tem um corpo bonito, moreno e elegante, um pouco magro e é só. O cabelo comprido está muito despenteado mas é liso. Ao sol terá reflexos de ouro.
Senta-se na poltrona e ouve-se o riscar de um fósforo. A cabeça inclina-se para o lado e sopra fumo. Depois recosta-se para trás. Não é o fumo em si, é a sensação de que ele sobe no ar com a angústia, sobe no ar, deixa um acre na garganta que tem o sabor amargo da angústia, por entre os lábios e sobe no ar, lento, lânguido, como a dor que acorda connosco, a verdadeira, não é o fumo em si portanto, é ele parecer-se tanto com o remorso e com a saudade.
Ainda quis soltar uma gargalhada, daquelas curtas e secas, daquelas, mas como denunciasse um dramatismo demasiado consciente, hesitou, bastava de dramatismo. E selou o silêncio e a solidão como mais uma passa.
Ela conhece tão bem os mecanismos da mente, as suas encenações, os seus embustes, que não se permite sofrer. Ela também sabe disto, mas pensa que agora não pode ser de outra maneira. Lembra-se de ter lido:

«Sofrer é sempre culpa nossa.»

p.s. seria o começo para qualquer coisa, como centenas de outros começos, mas como não gostei ponho-o aqui e acabo com ele, bem entendido.

Simplicidade

És tão simples, não sei como o fazes.
Não o fazes, isso não se faz, sou eu que não a tenho.
Escrevo com a tua caneta
simples
porque é tua
bonita porque é tua
porque as coisas não são bonitas
sozinhas.
Portanto, pertences a quem, és de quê?
donde, como, e lá estão estas perguntas
vãs de estrangeiro maravilhado
de ignorante ressentido
de inveja, de maldade, de paixão.

Precipito-me se digo simples, bem sei
mas é da vertigem que me acomete
se te vejo
(não ver, contemplar)
se te contemplo daqui
do mundo
deste, pelo menos,
escuro escuro
tão escuro que somos critaturas pequenas e sós
contemplando as estrelas.

p.s. eu devia era ter vergonha na cara e não editar merdas destas.

segunda-feira, junho 13, 2005

o texto que não consegui

Imaginem uma coisa bonita:

fui eu que a escrevi aqui

sábado, abril 16, 2005

pela hora em que as coisas deitam a sombra para dormir

agora quando a minha madrinha me manda para a cama não adormeço logo porque ainda é dia. Fico a ver as chaminés vogarem pelos telhados e os pardais e as andorinhas afadigados tricotarem a noite. Escuto as portas dos carros baterem e os talheres dos vizinhos. Depois há um derrame no céu, as chamninés, os telhados e os pássaros detêm-se e a noite espera que eu me distraia para estender estrelas a cintilarem morses divinos. A rua reduz-se aos passos de alguém que passeia o cão, as árvores recolhem-se pesadas de pardais, as televisões dos vizinhos conversam umas com as outras monólogos azuis e eu adormeço finalmente a imaginar a carta de amor de um rapaz sem nome que me acha bonita.

Pelo Horizonte em Redor

É por muito pouco que eu existo.
E por menos ainda que estou a escrever aqui.
Fui esquecendo, esquecendo, até ao silêncio,
até perder o desejo de esquecer.
Até ser uma estátua de areia a sorrir no deserto.
Percebo uma suspeita de mar no vento
um prenúncio de vagas e tempestades
em frio, quilhas e gritos de espuma.
A noite vai amarinhando
pelo horizonte em redor
como uma corola de lã
bordada baixinho
entre giestas
pelos vagidos das baleias,
e por momentos o silêncio
é o escuro inconsútil
e a ausência de marés no vento.
Mas do centro do deserto
uma formiga de açúcar
espadana um leque de areia
que desperta tudo
permanece tudo igual porque o deserto é mesmo assim
mas sente-se um frémito nos dedos
na língua, no pescoço
e é a grande migração que principia
nas nossas pálpebras quietas.
O sol salta de uma árvore qualquer
(uma nespereira, imagino)
e nasce com a lentidão dos frutos
daquele lado do céu
e sobe sobe subindo
ligeiro e demasiado grande
para ter voz, para saber que existe,
para dar nota do meu sorriso
baço, defunto e eterno,
da minha inclinação de caule,
do meu quebranto empoado
de sal fino no vento,
dos meus dedos de pedra
que num arreganho de vida
provam do mar
no diadema da noite
incrustado de lua
roçagando lã
pelo horizonte em redor.