Para quê mentir
Amiguinhos, este espaço despede-se de vós com este texto antigo (creio que terá uns dois anos). Não é por mais nada, apenas me deu gozo lê-lo quando hoje tropecei nele. As razões para acabar com o blog? Perdi o prazer de escrever nele. E como o prazer fosse o fundamento da sua existência, a minha atitude só peca por extemponânea dado que perdi o gozo nisto há uns tempos. Talvez que não tivesse tido antes a coragem de o assumir nos momentos de solidão em que me encaro como ser humano (quando vou fazer cocó). Não vou deixar de escrever, obviamente. Mas quero abalançar-me a outros voos e para isso não posso andar com este blog no entendimento. Gostei muito de vos ter como leitores, especialmente quando me prendavam com os mais forçados encómios (elogios que nunca deixei de associar à generosa tentativa da vossa parte para prevenir o meu suicídio). Trato-vos por leitores devido ao binómio leitor/escritor. Porque eu sou um escritor (ou perguntem lá à minha mãe).
Outra coisa: após as exéquias ao Sono das Maçãs, sou capaz de responder à cortesia do meu amigo José Filipe (esse virtuoso) e enviar-lhe muito de quando em vez umas coisinhas para ele publicar no seu blog, o Vodka e Valium 10 (http://vodkaevalium10.blogspot.com).
Uma pessoa comove-se com as despedidas e vai tentando adiá-las a qualquer pretexto. Mas eu corto cerce nas mariquices, dou-lhes já os meus beijinhos e deixo-vos com o epitáfio que eu escolhi para a lápide do defunto:
«Ingredere in petram, et abscondere in fosso humu»
Isaías
(Entra na sepultura, e some-te na terra dessa cova)
Para quê mentir, hã? Para quê mentir? Estou farto daqueles choradinhos poéticos: “a lua a franzir uma nuvem, a lua zangada comigo, e uma estrelinha a aproximar-se à revelia do luar hegemónico, o lua napoleónica ‘eu sou uma estrela, só que sou maior que as outras’”,
estou farto dessas merdas, percebem? “o colibri pousado no ar a beber o esperma da flor ao tempo em que larga um bocadinho de cocó que as raízes engolem avidamente”
“as raízes e as minhocas revolvem a terra, fazem-me cócegas na planta do pé, eu sou um kayake”
depois aquela salmodia da dor e da tristeza e do desespero “o êmbolo do tempo a empurrar-me para a morte, dói tanto a queda da tua lágrima no meu testículo esquerdo quando sabes bem que não tenho testículo esquerdo.”. ”Se lograres auscultar o estertor dos vivos entendes o meu anelo (palavra que me faz lembrar ânus), os mamilos duas borrachinhas (apaga-me a erecção do lápis).”
E não me venham com merdices! Querem a verdade, eu dou-vos a puta da verdade:
O único monólogo audível na minha mente é muito simples:
para as mulheres:
“sua vaca comia-te toda filha da puta/ tu és um ogre puta de merda mas aposto que estás esfomeada eu trato-te da saúde / tu tens a mania que és certinha, dava-te uma lição, fodia-te até à morte camela de merda (adoro o camela), tu nem para me limpares o cu servias”
para os homens:
“és feio, pelo menos sou mais giro do que tu, sou mais forte do que tu, e tu podes ser mais forte do que eu mas eu sou mais inteligente, és um burro feioso, mania que és rico dava-te um soco nos cornos cabrão”.
Estou farto de ter de respeitar os outros ou de ter de manter uma imagem PORQUÊ?!!!!! PORQUÊ!!!!???? quem disse que o tenho de fazer!!!!!????? Farto de sorrir para ti e para ti também, de te apertar a mão, de ter de construir um diálogo contigo e não poder dizer logo VAI COMER ATUM ou A TUA MÃE LAVOU-ME O ESCROTO COM PEDRA-POMES!!!!!
portanto lembra-te quando me apresentares a tua namorada ou a tua amiga ou a tua irmã eu vou lambê-la dos pés à cabeça, lembra-te que se eu pudesse já te tinha matado
lembra-te que, quando me vires sorrir cordialmente ou simplesmente ostentar um semblante inexpressivo, vou estar a dizer uma só coisa: AAAAAAAAAAAARRHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
e por que raio não me posso peidar e por que raio não posso arrotar e gritar caralho?! ahhhh?!?!?!? FILHOS DUMA GRANDE PUTA!!!!
Se exceptuarmos o Sol, constatamos que a estrela mais próxima está a 4 anos-luz da Terra, ao passo que a mais afastada (da Via-Láctea) dista cerca de 220.000 anos-luz da Terra. Os cientistas afirmam existir cerca de dois milhões de sistemas estelares semelhantes à Via-Láctea, alguns distando de nós mais de cem milhões de anos-luz. Um ano-luz é a distância percorrida pela luz num ano. Um fafoisboliorrinco corresponde a 1,537264738228447 metros. A curvatura do Universo percorre um ângulo de 1663734833,17364383 graus aralórripetros, logo sendo o mundo regido por leis abstractas, a admitirem-se os constantes universais, deus terá de ser uma entidade abstracta. E qual é o único ser capaz da abstracção? O Homem, claro está. Solipsismo. A abstracção é uma invenção do Homem, e as leis não são mais do que convenções comparáveis às medidas. A abstracção existe porque estamos a falar nela. Ah, mas os unicórnios não existem. Claro que existem, se estamos a falar neles! Inventámo-los nós. Pois, mas unicórnios são abstracções. Ah, Ah!! Disseste: “os unicórnios são”. Isso são só palavras. O verdadeiro e o errado existem? Como podes provar que eu existo? Quem sou eu? Não sabes! Quem és tu? És tu. O unicórnio é. O que podemos fazer pelo mundo? Lavar os dentes? E se os setes dias da criação do mundo fossem Eras ou Idades?
Assim damos por nós em vias de
recomeçar a criação como se fosse nossa
a primeira tacada de snooker e
a verdade integral dada numa simplicidade que oculta obscuros desígnios.
Os braços com parcelas que não controlam e a excedem
a adição subtrai-se à pureza inicial e
aponta com o dedo a verdade do mundo.
As barbelas do intelecto a filtrarem cabimentos e probabilidades e
a adornarem a pedra candente gelada de floreios de rosa e mulher
recomeça tudo outra vez até que a subtracção se some à pureza inicial
bizantinismos (aprendi esta palavra há um par de meses)
anciloses (esta há coisa de dois anos)
rodriguinhos (ouvi hoje na aula de Reais e achei engraçado)
deixem-me em paz não olhem para mim não me perguntem como estou eu sou um
guaxinim
contentem-se com isso
metam-se nas vossas vidas se já inventaram uma
se não inventem uma. Eu dou uma dica:
“Está alguém lá fora a olhar para a vossa janela”.
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